para maiores de 18 anos

3
dez 2011

Poliamor: quantos cabem no seu coração?

 
por: Julieta Jacob
 

É diferente de poligamia, bigamia, de suruba, swing e ménage à trois. Ao mesmo tempo tem um pouco de tudo isso. E causa confusão mesmo. Poliamor (do inglês, polyamory) é, segundo a Wikipédia, um tipo de  relação interpessoal amorosa que recusa a monogamia como princípio ou necessidade. Ok, ainda não ficou claro, mas ficará até o fim do post, eu garanto. Vale a pena ir até o fim. Outro dia, voltando para a empresa onde trabalho, um colega puxou o mote: “Vocês já ouviram falar de um tal de poliamor? Parece que é novidade, mas eu não sei direito o que é…”. O assunto nos rendeu quase uma hora de conversa, no percurso de Ipojuca até Recife. Para esclarecer, a prática do poliamor não é nova. Nos últimos 20 anos, ela já existe inclusive enquanto “movimento organizado” nos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e vem ganhando adeptos mundo afora.

Na década de 80 Simone de Beauvoir escreveu, no livro O Segundo Sexo, que declarar que um homem e uma mulher devem bastar-se de todas as maneiras durante toda a vida é “uma monstruosidade que engendra necessariamente hipocrisia, mentira, hostilidade e infidelidade”. Foi ainda Bouvoir que dividiu o amor em duas categorias: os necessários e os contingentes. Casada com Jean-Paul Sartre por mais de 50 anos (1929-1980), ela escreveu: ” Sartre não tinha a vocação da monogamia… ‘Entre nós’, explicava-me utilizando o vocabulário que lhe era caro, ‘trata-se de um amor necessário: convém que conheçamos também amores contingentes'”. O trecho foi extraído do livro Infiel, da antropóloga Mirian Goldenberg. Aqui no Brasil a popularidade do poliamor se deve em grande parte ao trabalho da psicanalista e escritora Regina Navarro Lins que há um tempo aborda o assunto em artigos e na mídia nacional.

Recentemente o programa Pé Na Rua, dirigido e apresentado pelo jornalista Ivan Moraes Filho, dedicou uma edição inteira ao poliamor, que você pode conferir abaixo:

Poliamor no Pé na Rua

httpv://youtu.be/kYRdUI_iT7Y

Gostou do depoimento do pastor cristão e professor de direito Martorelli Dantas? Então veja a entrevista dele na íntegra:

httpv://www.youtube.com/watch?v=N9bGdkCx_yo

Entrevista: Ivan Moraes Filho

Erosdita: Por que vc decidiu abordar o tema poliamor no seu programa?

Ivan Moraes Filho: A linha editorial do Pé na Rua privilegia assuntos que normalmente não estão na pauta dos meios tradicionais. Percebemos que havia uma necessidade de colocar esse tema no debate, para que todo mundo pudesse dar sua opinião. Já falamos sobre legalização da maconha, sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo, sobre crack, sobre reforma agrária. Esse é mais um tabu que a gente colocou no debate público, sem preconceitos.

Erosdita: Você já conhecia o termo antes de fazer o programa? Como define poliamor?

IMF: Li pela primeira vez sobre poliamor numa entrevista da psicanalista Regina Navarro no projeto “Por que a gente é assim?”, do qual fui colaborador. Poliamor é a possibilidade de relacionar-se com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, sem mentiras ou subterfúgios.

Ivan à frente do Pé na Rua. Foto: Daniela Nader

Erosdita: Como foi que você pautou os seus entrevistados (por que escolheu uma psicóloga e um pastor)?

IMF: A psicóloga era uma escolha óbvia, porque estuda comportamentos e relacionamentos. Nossa produção buscou personagens que tivessem coisas a dizer sobre poliamor (casais, pessoas que concordam, pessoas que discordam, etc). Em princípio, não iríamos abordar a questão religiosa, mas nas redes sociais descobrimos e tinha um pastor que via essa questão com muita naturalidade. Achamos que renderia bem – como na verdade rendeu. Essa coisa de construir as matérias de forma transparente, usando as redes sociais, é uma prática corriqueira nossa. Bacana é que quando a matéria fica pronta, tem muita gente que sabe que colaborou.

Erosdita: Sei que você teve dificuldade pra encontrar casais que praticam o poliamor em Recife (você chegou até a escrever no twitter que trata-se da nova homossexualidade). Por quê?

IMF: Achar não foi tão difícil. Mais difícil foi conseguir com que falassem abertamente. Quando disse que era a nova homossexualidade, falo de uma questão de atitude. Existem pessoas em relacionamentos poliamorísticos hoje, é fato. Existe praticamente uma cultura poliamorística que dialoga através de sites, comunidades na internet, etc. Mas essas pessoas têm muito receio de “sair do armário”, por compreenderem que seu comportamento não é bem visto pelo status quo. Já nas últimas horas de gravação conseguimos um casal que declarou ter um “relacionamento aberto”, o que não é necessariamente a mesma coisa que poliamor. Também conseguimos um cara que tem duas mulheres, mas por questões técnicas não conseguimos gravar com ele. Como te disse antes, as redes sociais sempre são utilizadas nas matérias do Pé na Rua. É meio que praxe nossa. Uma coisa que rolou muito foi a galera dizendo que conhecia gente envolvida em relacionamento poliamorístico, mas que não queria aparecer. Como em poucas outras vezes, recebemos muitas mensagens reservadas comentando o desenrolar da produção.

Erosdita: Depois de fazer o programa, a tua percepção sobre o tema mudou? O que mais te impressionou?

IMF: Como esse tema era uma coisa que já me interessava, sobre o qual eu já andava lendo, não vi muita novidade nas opiniões que ouvi. Mas meio que consolidei uma opinião que já tinha, a de que – ao menos no discurso – as novas gerações têm mostrado bastante abertura não só a diálogos sobre o poliamor, mas sobre formas, digamos, alternativas de relacionar-se. Me parece que existe realmente uma tendência a novos arranjos amorosos daqui para a frente.

Erosdita: Você acha que o brasileiro está pronto para encarar esse tipo de relação (e, se está, não admite)?

IMF: Vou copiar uma resposta-pronta de Regina Navarro: e se eu dissesse, há 40 anos, que as meninas não vão mais casar virgens? Que homem iria casar com homem no cartório? Que divórcio seria uma coisa natural? Eu acho que não rola esse lance de “estar pronto” ou “não estar pronto”. A sociedade vai caminhando e é natural que esse caminhar cause, ainda que lentamente, mudanças na maneira de ver certas coisas. A poligamia masculina sempre foi bastante aceita (ainda que de forma velada) por esta mesma sociedade que defende publicamente a monogamia (como se monogamia fosse um traço genético de nossa espécie). Quando a mulher conquista direitos e passa a questionar este “monopólio” do prazer, do desejo e – por que não? – da poligamia, é natural que esses novos arranjos comecem a aparecer.

Erosdita: Você já teve ou tem uma relação poliamorística? E, se tivesse, admitiria?

IMF: Nunca tive. E admitiria, sim. Muito honestamente, imagino que meus relacionamentos daqui para a frente tendem a ser abertos. Fidelidade e monogamia definitivamente não são sinônimos.

E você, caro(a) leitor(a), quantos cabem no seu coração?

 

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3 comentários
  1. dedos
    nov 19, 2013

    eu sigo esbarrando no fato de a maioria das pessoas saírem correndo quando você se declara um adepto desse tipo de prática. não sei se estou me comunicando mal, talvez esteja, mas a impressão que definitivamente fica nesse caso é que é muito difícil até mesmo falar sobre isso num âmbito social que não a internet. o mundo de “carne-e-osso” ainda tem sérios problemas para romper com a monogamia romantizada.

  2. dedos
    nov 19, 2013

    e até na internet é difícil discutir sobre isso de fato. estou surpreso que não tem nenhum fanático religioso proferindo vulgaridades até agora aqui na página.

  3. Eu
    fev 01, 2014

    É complicado atá mesmo falar no assunto, mas concordo que a monogamia é muito complicado e insatisfatório. Eu já perdi pessoas importantes na minha vida, que poderia ter conservado se estivesse nesse grupo.; Creio que seja uma saída, mas vai precisar de algum tempo, talvez muito tempo mesmo.

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