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30
jan 2016

Boi Neon enriquece o debate de gênero e sexualidade com personagens que rompem o clichê

 
publicado em: estudos de gênero, sexo
por: Julieta Jacob
 

Não tem perigo de eu ler “Um filme de Gabriel Mascaro” na telona e não me emocionar. Gabriel, é impossível não lembrar dos nossos tempos de estagiários na TV Universitária (mais especificamente no programa Curta Pernambuco, junto com Tibério Azul – outro artista, diga-se). Sinto um orgulho danado, essa é que a verdade.

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Maeve Jinkings é Galega. Foto: Mateus Sá.

Isso porque, Gabriel, o que você nos entrega em Boi Neon é uma obra de arte. Li que te chamaram de “arquiteto de imagens”. Eu concordo e vou mais além: artista plástico ou designer de imagens também caberia. Imagens que saciam nossas retinas e dispensam que qualquer outro sentido seja estimulado.

Como aqui no blog o assunto é sexo e sexualidade, vou me ater a esses aspectos, que você explora tão bem nesse filme. Desconfio que não tenha sido intencional, mas em um momento em que se fala tanto no país sobre a importância da discussão dos papeis de gênero, Boi Neon nos oferece uma rica contribuição para o debate.

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O diretor Gabriel Mascaro em ação nos bastidores. Foto: Mateus Sá.

Um vaqueiro que também é estilista. Uma vendedora de cosméticos que também é vigilante (do tipo que anda com uma 38 pendurada na cintura). Uma dançarina que também é motorista (de caminhão. E também mecânica, já que ela mesma faz reparos no veículo).

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Juliano Cazarré é Iremar. Foto: Mateus Sá.

E assim, ao fugir do óbvio, Iremar, Geise e Galega rompem a fronteira entre o masculino e feminino no interior do Nordeste, onde o intenso ranço patriarcal impõe rigidez aos papeis de gênero.

Temos ainda o vaqueiro Júnior, vaidoso, que faz chapinha e usa aparelho ortodôntico. A julgar por sua aparência feminina, qualquer homofóbico de plantão duvidaria da sua “masculinidade” (aqui entendida como sinônimo de heterossexualidade), mas essa expectativa é logo frustrada, afinal, a orientação sexual não está necessariamente ligada à maneira como a pessoa se expressa. Ou, em outras palavras, não é porque um homem tem cabelão e faz chapinha, que ele é necessariamente gay.

O filme traz ainda uma das cenas de sexo mais belas que eu já vi. E, da mesma forma, para além do óbvio: uma mulher grávida transando com um homem que não é seu marido (ou o pai da criança) e é ela que toma a iniciativa da transa. Sim, grávidas têm tesão! E transam! A cena faz jus ao título de “arquiteto-designer-artista plástico de imagens” que Gabriel recebeu. A gente meio que para de respirar durante cerca de 10 minutos.

Todos esses rompimentos ocorrem em um cenário tradicionalmente habitado por machos e machões. E onde o progresso da indústria têxtil e da engenharia genética contrasta com uma vida de extrema simplicidade e pobreza. No meio de tudo isso, uma criança, Cacá, filha de Galega, perambula entre bois e cavalos. Abandonada pelo pai, Cacá reproduz padrões machistas ao censurar a liberdade sexual da mãe. Cacá é, na verdade, uma menina criada em um ambiente hostil, o que reforça a sua carência afetiva. Sabe o abraço que ela pede a Iremar? É assim que dá vontade de te agradecer por Boi Neon, Gabriel. Confesso que fiquei chateada quando o filme acabou. Eu não estava preparada para me despedir daquela história. Queria mais. Espero que quem ainda não viu o filme se conforme um pouco mais depois de ler este texto. Valeu, Gabriel!

Veja onde assistir a Boa Neon na sua cidade clicando aqui.

 

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