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12
jan 2016

David Bowie: o camaleão do rock e do sexo foi muito além dos rótulos

 
publicado em: estudos de gênero, LGBT
por: Julieta Jacob
 

Mas afinal, David Bowie era gay? Bissexual? Se você já pensou em desistir de ler esse texto só por esse início, imagina David Bowie, que ao longo de seus 69 anos de vida, teve que conviver com essas insistentes – e inconveniente – perguntas. E acredite: ainda tem gente buscando respostas.

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Tudo começou em janeiro de 1972, quando ele afirmou para o jornal britânico Melody Maker: “Eu sou gay e sempre o fui, mesmo quando eu era David Jones” (esse é o nome de batismo de Bowie). Na época, o artista estava no início do auge da fama e sua declaração impulsionou os movimentos LGBT, que davam os seus primeiros passos.

O seu visual andrógino, que rompia com os padrões normativos de gênero, além de fazer dele um pioneiro nesse aspecto, também colaborava para reforçar a sua (possível) homossexualidade.

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O detalhe é que nessa mesma época Bowie era casado com a sua primeira esposa, Angela. Como assim um gay casado com uma mulher? Ele não seria bissexual?

com angela

Com Angela, no dia do casamento deles.

Em 1976, a resposta: cai um rótulo e surge outro. O cantor britânico, finalmente, confessou à revista Playboy o que tanta gente queria saber: “É verdade, eu sou bissexual. Mas não posso negar que tirei um grande partido desse fato. Creio que foi a melhor e mais divertida coisa que me aconteceu”.

Só que a afirmação não caiu tão bem para ele. Apesar de sua já reconhecida genialidade musical, Bowie passou a ser rotulado como o “cantor bissexual”, quando queria ser reconhecido por seu talento artístico e não, digamos, sexual. Até hoje a bissexualidade é alvo de preconceito e bissexuais são apontados como “pessoas indecisas ou escorregadias”.

Voltando à linha do tempo sexual de Bowie: em 1983, outra mudança: a revista Rolling Stone estampou a manchete “David Bowie heterossexual”. O camelão do rock, como era conhecido, provou ser também um camaleão do sexo. Voltou atrás e descartou o antigo rótulo: “O maior erro que cometi foi dizer que eu era bissexual. Meu Deus, eu era tão jovem naquela época. Eu estava experimentando…”.

Em 1993, novamente para a Rolling Stones, Bowie enfim declarou a sua heterossexualidade ao se autodefinir como “eu sempre fui um heterossexual no armário“.

É claro que devia ter um pouco de jogada de marketing nessa história toda. Mas não acredito que ele tenha “mudado de ideia” por sentir vergonha ou arrependimento de ser (ou revelar ser) gay ou bissexual. A julgar pelo espírito livre e ousado do cantor, acho mais provável que tais rótulos não servissem para definir nem a sua identidade nem o seu apetite sexual – notadamente voraz (aliás, ele mesmo disse ser um “promíscuo”), e que começou a entrar em ação aos 14 anos.

Talvez você não saiba, mas em 1961, David (ainda Jones), se apaixonou por uma menina na escola e acabou brigando com um amigo, que também gostava dela. Na disputa, levou um soco no olho esquerdo. Como os músculos foram danificados, a pupila ficou permanentemente dilatada, dando a falsa impressão de que os dois olhos dele têm cores diferentes.

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O que me parece é que Bowie se deixava guiar pela fluidez do seu desejo, que se apresentou ambíguo, sem se importar se era isso ou aquilo – e antecipando a era pós-identitária e a quebra do binarismo de gênero que vemos hoje ganhar mais evidência e tirar a sexualidade de dentro de uma rígida e rotulada caixinha.

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Com a segunda esposa, Iman, com quem era casado desde 1992.

Ele revelou que praticou sexo com homens e mulheres. Usou roupas, penteados e maquiagens incomuns com elegância e ousadia ímpares. Foi casado duas vezes e teve dois filhos. Voltemos às dúvidas do início do texto: mas afinal, David Bowie era gay? Bissexual?

Não pense você que vou entrar nessa obsessão. Em vez de respostas, eu proponho mais perguntas (senta que lá vem):

– Ele pode ter sido tudo isso ou nada disso ao mesmo tempo?

– Ele pode ter sido uma coisa de cada vez, mudando de orientação sexual como um camaleão muda de cor?

– Será que a gente tem que ter um rótulo?

– E esse rótulo tem que ser imutável pelo resto da nossa vida?

– Em que momento da nossa vida e como a gente descobre a nossa orientação sexual?

– É possível escolhê-la ou a gente já nasce com ela?

– Por que as orientações sexuais não hegemônicas despertam tanta crítica, desconfiança e curiosidade?

– Será que é possível definir a orientação sexual de uma pessoa através da maneira como ela se comporta e vive a sua expressão de gênero?

Certeza, eu tenho apenas uma: encontrar um lugar para Bowie na escala de Kinsey não fará dele mais ou menos incrível do que ele foi.

Extra: Dois vídeos em que o artista responde à fatídica pergunta e fala de sua orientação sexual (estão em inglês, não encontrei com legendas, sorry):


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