para maiores de 18 anos

18
fev 2016

Adele passeia com o filho vestido de princesa: quatro coisas que você precisa saber

 
publicado em: educação sexual, estudos de gênero
por: Julieta Jacob
 

A cantora Adele foi se divertir na Disney com seu filho Angelo, de três anos, que foi fotografado vestido de princesa. A imagem despertou dúvidas e curiosidades de muita gente. Garimpei alguns comentários para esclarecê-los:

adele

Imagem: divulgação

1- Ele não tem maturidade nenhuma, isso com certeza só confunde a cabeça da criança!

Pensa comigo: e se Angelo quisesse se vestir de Olaf, você também acha que geraria confusão? Veja só, a criança pode achar que é um boneco e neve, hein? Se mesmo assim você respondeu que não teria problema, eu diria que seu argumento da “falta de maturidade” é falho e esconde razões de transfobia e misoginia.

2- Mas desse jeito o menino vai acabar achando que é menina!

Descarte essa possibilidade. A identidade de gênero não é construída “de fora para dentro” e muito menos por um evento isolado, como vestir uma roupa do sexo oposto. É um processo muito mais complexo. Em vez disso, pode-se cogitar:
Possibilidade 1: Angelo é transgênero e Adele não vê problema no fato do filho se sentir dessa forma e ter vontade de se vestir como menina. Que ótimo! Sim, crianças trans existem. E tudo indica que Adele não teria problema em relação a isso, pois já demonstrou estar aberta a questões de gênero e sexualidade ao declarar em entrevista que mal poderia esperar para conhecer “a namorada ou namorado” do filho.
Possibilidade 2: Angelo não é transgênero, ou seja, ele se sente como menino (é, portanto, cisgênero), mas quis se vestir de princesa porque é divertido. E isso não fez com que a pitoca dele caísse ou eles virasse menos menino. Sim, meninos também podem gostar de princesas. Por que não?

3- Mas desse jeito ele vai acabar sendo homossexual.

Pensamento equivocado. Assim como a identidade de gênero, a orientação sexual não é determinada simplesmente por roupas ou brinquedos. É um processo complexo e multifatorial (bio-psico-social). Pesquisas consideram, inclusive, que por volta dos 5 anos de idade essa orientação já esteja estabelecida (embora muitos pais e mães insistam em tentar “moldar” a sexualidade de seus filhos adolescentes). É claro que meninos que brincam de boneca (ou meninas que gostam de futebol) podem vir a ser homossexuais, mas não há uma relação direta de causa e efeito. Portanto, limitar ou proibir brinquedos e brincadeiras por “medo” de interferir (ou influenciar) na sexualidade da criança, além de ser uma bobagem, é também uma forma subliminar de homofobia (entendida aqui como LGBTfobia). Além do mais, é importante não confundir identidade de gênero com orientação sexual. A primeira é como a pessoa se sente (menino ou menina) e a segunda está relacionada com o desejo sexual e a forma de viver prazeres e afetos. Exemplo: considerando a hipótese de Angelo ser transexual (se sentir como menina), caso ele venha a se atrair por e se relacionar com homens, ele será heterossexual, entendeu?

4- Não vejo problema algum. A maldade está nos olhos de quem vê.

Muita gente usou essa frase para opinar favoravelmente sobre esse episódio e, por isso, chamo a atenção para algo grave. Perceba: qual seria a “maldade” em questão? Concluir que o filho de Adele é transexual (e/ou homossexual)? Por outro lado, não ter maldade seria concluir que se trata apenas de uma criança cisgênero (e heterossexual) fantasiada e brincando de faz-de-conta. Pode não ter sido a intenção, mas esse raciocínio induz à mensagem de que imaginar que uma criança seja transgênero significa ter um pensamento ruim e malvado sobre ela. Portanto, dizer “a maldade está nos olhos de que vê” é corroborar com o discurso de que ser uma pessoa LGBT é algo negativo. E por que seria? Portanto, se você de fato não vê problema e assimila a diversidade sexual como algo positivo, não use essa frase, pois sendo a criança LGBT ou não, simplesmente não há maldade em questão.

 

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2 comentários
  1. Tomaz Alencar
    fev 18, 2016

    Ótimo texto, Julieta! Estou conhecendo o blog agora e adorando as postagens e suas respostas aos comentários. Congratulações!

    Um cheiro.

    • Julieta Jacob
      fev 21, 2016

      Olá, Tomaz! Seja bem-vindo, obrigada pelo comentário e volte sempre 🙂 Grande abraço

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