para maiores de 18 anos

25
fev 2016

Fernanda Torres volta atrás e pede desculpas por texto em que acusa o discurso feminista de “vitimização”

 
publicado em: amor, feminismos
por: Julieta Jacob
 

Na segunda-feira passada a atriz Fernanda Torres publicou um texto, a meu ver, tão repleto de absurdos, que custei a acreditar. Não por ter sido escrito por ela exatamente, mas por uma mulher esclarecida e com acesso a informação.

Antes de qualquer indignação, porém, pensei: aposto que é só uma brincadeira que eu, desavisadamente, tou levando a sério. Daqui a pouco vai ter a confirmação que era só uma pegadinha, tenho certeza.

fern torresok

Mas com o passar do tempo, em vez da tal confirmação, começaram a pipocar textos em resposta ao texto de Fernanda. Então entendi que era sério.

Resolvi destacar as partes que mais me impressionaram:

1) A diferença (comportamental) entre homens e mulheres é “biológica, carnal, imemorial”

Não, Fernanda, é sócio-cultural. O argumento da Biologia só serve para naturalizar essas diferenças e transformá-las em desigualdades. Com isso não quero negar que existam diferenças entre os sexos, muito menos que algumas dessas diferenças sejam causadas pela Biologia. Mas nego veementemente o determinismo biológico no que se refere ao comportamento de homens e mulheres.

2) “Não me incomoda o machismo”

Me digam se é isso mesmo: entendi que ela compreende o que é o machismo, mas mesmo assim escolhe ser machista. E isso eu simplesmente não entendo, até porque o que vejo, ao contrário, são pessoas machistas por falta de opção (e de informação) ou que se esforçam para desconstruir o machismo.

3) Falando da beleza da sua babá de infância, Irene, que chamava a atenção por onde passava (fazendo homens uivarem, ganirem e gemerem por ela), Fernanda conclui que “o assédio não a diminuía, pelo contrário, era um poder admirável que ela possuía e que nunca cheguei a experimentar”

Então quer dizer que o assédio contra Irene era, na verdade, algo louvável e maravilhoso. Oi?

4) “Nunca fui mulher o suficiente para chegar a ser homem”

Diante dessa explícita hierarquização, essa nem precisa explicar, eu acho…

5) “A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo”

Primeiro, olha a contradição: ela tinha acabado de dizer que o machismo não a incomoda… E o que seriam mulheres vitimistas? Aquelas que desejam viver numa sociedade com menos injustiça e maior igualdade entre homens e mulheres? Elas te irritam? Pensa mais uma vez e refaz a frase, talvez tenha sido a pressa…

6) “A mulher tem o poder de se livrar das próprias amarras, para se tornar mais mulher do que jamais pensou ser: um homem fêmea”

Tava indo super bem até chegar nos dois pontos, quando ela conclui que o modelo de superação e perfeição que as mulheres devem almejar é – PASMEM – virar homem. Sério isso, Fernanda? Para de brincadeira, vai…

Uuuufa! Ela não só parou, como hoje, dois dias depois de publicar o texto, ela publicou outro pedindo desculpas lindamente!

“Jamais pensei que ele (o texto) seria uma afronta tão profunda a nós mulheres. Não o teria escrito se achasse que era esse o caso. (…) Esperava-se de uma voz feminina que tem um espaço para se posicionar, uma opinião menos alienada e classista diante da luta pelo fim de tanta desigualdade e sofrimento que as mulheres enfrentaram e enfrentam pelos séculos. (…) Refleti durante toda semana e o que me cabe são profundas desculpas”, escreveu.

Achei o máximo, até porque não resisto a um pedido sincero de desculpas. Parabéns a Fernanda pela humildade e capacidade de reflexão e a todas as mulheres que dedicaram tempo e paciência escrevendo textos para que ela (e quem mais precisasse) percebesse as besteiras que havia escrito. Que ótimo desfecho, hein?

Há quem duvide que ela tenha mudado de ideia tão rapidamente. Eu particularmente, acredito. Se não mudou por completo, ao menos iniciou um processo irreversível de mudança. Até porque a avalanche de críticas construtivas que ela recebeu foi tamanha, que correspondeu a um intensivão de “como não escrever besteiras que incitam o assédio, o preconceito e a violência contra mulheres”.

Em tempos de disputas ideológicas, radialismos e retrocessos de toda ordem (sobretudo no que diz respeito a questões de gênero e sexualidade), testemunhamos um episódio com final feliz.

 

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2 comentários
  1. Thiago Leite
    fev 25, 2016

    Então… Fernanda foi enfática demais e realmente exagerou pelos cotovelos nos comentários, por abruptamente não conseguir (ou conseguir ultrapassar) o que talvez queira ter dito.
    Na verdade, eu acredito na vitimização de mulheres, como na vitimização de gays, pobres, pretos, e etc.
    NUNCA me considerei machista e tenho plena consciência do mal que pensamentos anti-reacionários podem causar à sociedade. Sempre achei maravilhoso mulheres conquistando espaço merecido e igualdade de profissões, salários, dentre todo o reconhecimento devido. Mulher dirigindo ônibus tem crescido ultimamente, profissão que parecia tão “dura”, faz tudo suavizar ao ver uma mulher prestando toda a atenção e zelo feminino no coletivo, por exemplo. Porém, acredito que alguns grupos e algumas pessoas se aproveitam da produção deste espaço para vitimizar-se e querer vitimizar ideais que se tornam exagero. Tudo quando fica sendo 8 ou 80 acaba sendo chato, e perde totalmente a credibilidade. Sabe aquela ideia do protestar sem ter causa aparente na situação?
    Então pra mim todo mundo pode tudo e é igual, obviamente precisando que o Estado, a massa social permita que haja este espaço. Mas pra mim nunca deveria existir o “gayzinho”, o “pobrinho”, o “negrinho”, ou: não posso fazer isso porque sou mulher! Agora chegou a hora de fazer e mostrar que pode – com certeza – ao invés de ficar discutindo e discutindo o tempo todo que pode, melhor logo fazê-lo; e demonstrar que vivemos em sociedade para mostrar a minoria que os tempos mudaram, graças a Deus.

  2. marcio jose
    fev 25, 2016

    Bem, se vocês mulheres (algumas) não gostam do fiu fiu, tudo bem, as mulheres são machistas mais que a maioria dos homens, é muito fácil conquistar qualquer mulher no facebook, basta apenas elogiar sua beleza, na maioria das vezes nem bonita elas são, serve apenas para nós homens deixa-las em nossas mãos, muitas delas quando o assunto é sexo dizem: sou machista acho que como na dança é o homem quem guia a mulher na relação sexual também o homem é quem deve tomar todas as iniciativas até mesmo quanto as posições preferidas por eles pois o seu desejo é satisfazer o parceiro, caso contrário, o cara vai dizer que ela é ruim de cama. Se duvida faça o teste.

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