para maiores de 18 anos

21
jun 2016

Educação sexual: as escolas estão preparadas?

 
publicado em: educação sexual, sexo
por: Julieta Jacob
 

Reportagem*: Marlon Diego (marlondiego7@gmail.com) e Renata Mendonça (mpires.renata@hotmail.com)

Promover educação sexual nas escolas é uma questão de respeito aos direitos humanos e também de saúde pública. Significa abordar não apenas o básico – as possíveis consequências de relações sexuais sem prevenção (gravidez indesejada e/ou doenças sexualmente transmissíveis) –  mas também questões ligadas a gênero, enfrentamento à violência contra a mulher, identidade, sentimentos, comunicação, família, diversidade sexual e sexualidade.

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Na  Constituição de Pernambuco, no artigo 196, consta que a educação sexual é considerada um assunto essencial dentro das  salas  de  aula e deve ser abordada tanto na rede pública quanto na privada. Entretanto, ainda há um longo caminho a se percorrer.

Educação sexual na rede pública

Na região metropolitana do Recife, algumas escolas públicas estaduais e municipais participam do Projeto Saúde e  Prevenção nas Escolas (SPE), uma política intersetorial dos Ministérios da Educação e da Saúde,  com  apoio  da  UNESCO e do UNICEF, através da qual são oferecidos conteúdos de educação sexual para os estudantes.

Instituído  pelo Decreto Presidencial 6.286, de 05 de dezembro de 2007, o SPE objetiva “a promoção da saúde sexual e da saúde reprodutiva, visando reduzir a vulnerabilidade de adolescentes e jovens às doenças  sexualmente  transmissíveis  (DST),  à  infecção  pelo  HIV,  à  Aids  e à  gravidez  não planejada,  por  meio  do  desenvolvimento  articulado  de  ações  no  âmbito  das  escolas  e  das unidades básicas de saúde”.

Segundo Vânia Ribeiro, diretora da escola Municipal Maurício de Nassau, que fica no Alto do Mandu, são utilizados vídeos, palestras e cartilhas na educação sexual dos alunos. Ela explica que as questões relativas à sexualidade – a exemplo das questões  de  gênero,  doenças  sexualmente  transmissíveis,  gravidez  na  adolescência  e relacionamentos – são tratadas como temas transversais dentro de  outras  disciplinas.

A transversalidade deve­-se  à inexistência  de  uma  disciplina  própria  de educação sexual. A reprodução humana, por exemplo, é trabalhada dentro do conteúdo da disciplina de Ciências.

Já na escola  José  Glicério,  em Jaboatão dos Guararapes, a professora  Jucilene de Oliveira  explica que a educação sexual conta com “palestras regulares realizadas pela equipe do posto de saúde da comunidade. Nelas  são  abordados  assuntos  variados  como  o  a  importância  do  uso  do preservativo  masculino  e  feminino,  anticoncepcionais,  a  vacina contra o HPV, e eles  também distribuem informativos e preservativos”.

Os assuntos também são abordados em sala de aula: “Na disciplina de Biologia os professores falam sobre esses temas também quando abordam a reprodução humana,  mas  antes  disso  já  introduzem  o  assunto  aos poucos, a partir do oitavo ano, quando os alunos estão com 12 anos. A gente até permite  que  o  professor  leve  um  preservativo  para a sala  e  lá  ele  converse  sobre  o  uso,  a  importância e como adquirir”, detalha Jucilene.

A  diretora da escola, Audrey Noberta,  considera  que  entre  os  jovens  ainda  há  resistência  em  comprar o preservativo por vergonha, falta de consciência sobre a importância do uso e até falta de dinheiro. Também há quem alegue não se sentir “confortável” na hora da relação  ou ter o desempenho prejudicado. “O preservativo incomoda muito, por isso eu prefiro não usar e minha namorada concorda comigo”, diz Anderson Silva, 17, aluno do terceiro ano.

Tema tabu

“Antes de marcarmos as palestras com a equipe do posto de saúde, sempre tocamos no assunto  nas  reuniões  de  pais  e  mestres  e  nos conselhos  de  classe.  Avisamos  com  bastante antecedência aos pais e explicamos o que vai ser abordado nas palestras. Ainda assim, muitos deles  não  gostam  da  ideia  e  preferem  não  vir  ou  acabam  não  curtindo  muito  que  o  filho  ou, principalmente,  a  filha,  chegue  com  um  preservativo  em  casa.  Tem  muita  gente  que  ainda pensa que o filho vai ser incentivado à prática sexual pelo fato de participar de uma aula sobre o assunto”, avalia a diretora Audrey.

Jucilene  completa:  “O papel da escola  é  educar.  Mas, infelizmente,  quando  o  assunto  é sexualidade,  torna­-se  delicado  e  muitos  pais  chegam  a  vir  aqui reclamar das nossas medidas”.

Essa resistência conservadora  ficou visível em 2010, quando o livro “Mamãe, como eu nasci?”, reconhecido pelos Ministérios da Saúde e da Educação e escrita pelo premiado autor Marcos Ribeiro, foi recolhido  das  escolas  de  rede  municipal  de  Recife.  O livro teria  despertado  polêmicas  entre professores e pais de alunos por ter ilustrações consideradas “muito fortes”, chegando a ser chamado de “cartilha pornô” por seus opositores.

Ensino precário e gravidez não planejada

Lilia Camilo, de 22 anos,  foi aluna da escola José Glicério até o ano de 2010, quando concluiu seus estudos. Mãe de uma menina de dois anos, Lilia disse que nunca conversou  com  os  pais  sobre  sexo,  muito  menos  teve  qualquer  assistência  da escola. De uma turma de aproximadamente 40 alunos, na qual Lilia estudava, hoje em dia, são mais de oito jovens que já têm filhos.

“Fiquei muito surpresa porque não esperava (a gravidez), mas minha família reagiu bem e meu ex-­companheiro também assumiu as responsabilidades. Eu sempre pensei em ter filhos e  construir  uma  família,  mas  não  imaginava  ser  tão  cedo”. Perguntada  sobre  como reagiu  à notícia e  se ela  sabia  como deveria  se proteger, ela respondeu  com  confiança que “sabia o que estava fazendo, mas não imaginava que pudesse acontecer comigo”.

A professora Jucilene de Oliveira reconhece que “ainda há uma enorme deficiência na forma como  se aborda esse tema.  Faltam  recursos  do  governo.  Acho  que  [educação sexual] deveria  entrar  na  grade  curricular  como  uma disciplina extra, para ter uma maior eficácia. Ainda existem muitas meninas grávidas aqui, é preciso intensificar  essa  conversa  com eles [jovens] e  com os pais. Fazê-­los  crer que isso é o melhor para todos”, reforça.

Combate à LGBTfobia

Sobre  casos  de  homofobia  por  parte  dos  alunos, a diretora  Audrey Noberto diz  que  os  alunos  têm  uma maior aceitação sobre a orientação sexual de outros colegas. “Aqui na escola não há casos de homofobia que vão adiante. E se tiverem casos de xingamentos, a gente e conversa sobre a situação e explica que é errado. Entretanto, não vejo muito preconceito aqui. Eles têm visto a homoafetividade  com  mais  normalidade”.

Ela continua:  “Temos educadoras  de  apoio  com  pós­-graduação  em  Psicologia  da  Educação,  e  a  gente  acaba revezando entre ser professora e ser psicóloga”, pois não existe uma profissional específica para esse tipo de assistência psicológica. “Quando há necessidade chamo os pais e os alunos para ajudar a resolver qualquer problema que esteja acontecendo”, completa.

ed sexual

Educação sexual no ensino privado

Já nos colégios particulares, o perfil  da  instituição  influencia  fortemente  na  maneira como a educação sexual vai ser implementada, levando os  colégios religiosos a tratarem a temática de forma bastante distinta daqueles considerados laicos.

Colégio  Damas  da  Instrução  Cristã, que fica na zona norte do Recife, por exemplo, trabalha  a  sexualidade  dentro  do  conteúdo  da disciplina  de  Formação  Humana,  do  sexto  até  o  oitavo  ano. Segundo o professor, Aderson  Cavalcanti,  quando  a  aula  é  sobre  sexualidade,  a  turma  é  dividida  entre  meninos  e meninas, sendo ele responsável pelos garotos e a psicóloga Aline Dias pelas garotas.

De acordo com Aline, os  temas  mais  explorados  são  masturbação,  o  “ficar”,  mudanças  do  corpo,  namoro, e a conversa se desenvolve a partir das perguntas dos próprios alunos, que questionam em voz alta ou anotam suas dúvidas em pedaços de papel anonimamente.

Sobre a questão religiosa, a psicóloga conta que não pode perder de vista que se trata de colégio católico, mas que esse não é o foco.  “A  temática  da  masturbação,  por  exemplo,  eu  abordo  dizendo  que,  pela  orientação católica,  há  a  moral  de  como  se  deve  levar  a  sexualidade.  Mas  também  há  a  questão  dos hormônios, da fase de descoberta, e que a Igreja também entende isso, que é uma fase da vida do ser humano que é superada com o amadurecimento. A questão da camisinha, eu digo que há  a  questão  da  saúde  pública,  das  instituições  que  orientam  que  ela  deve  ser  utilizada.” explica.

Já o professor Anderson  afirma  que  é  preciso  fazer  com  que  os  alunos  entendam  que  sexualidade  não  se resume aos órgãos genitais. “A sexualidade mexe com toda a estrutura do ser humano, inclusive na forma como queremos ser tratados e amados”, avalia.

Sem arrodeios

Uma abordagem bem diferente é adotada no curso pré-­vestibular Os Caras  de Pau, que possui  uma  política  bastante  liberal  quanto  ao  tema  do  sexo. O curso atende um público bem diversificado, com homossexuais, lésbicas, transexuais, travestis e  até  mesmo religiosos.

Procura-­se  ampliar  a  discussão  sobre  sexualidade,  levando  debates nos  quais  se  fala  sobre  posições  sexuais,  kama  sutra,  gênero,  orientação  sexual,  cultura  do estupro,  homofobia,  identidade,  autonomia  da  mulher  e  sobre  o  prazer.

As  palestras,  muitas vezes,  são  ministradas por  travestis,  prostitutas,  vendedores  de  lojas  de  artigos sexuais, entre outros. “Aqui a gente fala do sexo enquanto uma coisa mais real, a coisa do prazer individual, de  você  querer  gozar  a  vida,  de  querer  ter  um  orgasmo sem compromisso.  Mas  a  gente  não  fala  do  sexo  como  aquela  coisa descontrolada, sem prevenção, a ideia não é essa”,  explica  o  professor  de  redação,  Diogo  Didier.  Ele  ainda  conta  que  as  palestras  e debates fazem parte da grade curricular do curso.

Masculino ou feminino?

Procurando respeitar a identidade sexual de cada aluno, o curso permite que as pessoas escolham o banheiro que quiserem.  Desde  que  o  sistema  foi  implantado,  aconteceram  episódios  de desrespeito por parte de outros alunos e o curso precisou intervir em sala de aula, explicando que qualquer tipo de preconceito ou discriminação não seriam aceitos.banheiroO  professor  explica  que  os  pais  são  informados  sobre  a  política  do  curso  quanto  ao tema no ato da matrícula e que a liberdade por eles defendida não é sinônimo de libertinagem.

“Acho que o mais importante é o discernimento. Se você diz a um aluno que o sexo é só para procriação, limitando à coisa religiosa, está mentindo. A escola e a universidade são uma extensão da sociedade, então tem que trabalhar em conjunto com a sociedade. Se há gravidez, DST e aborto na sociedade, nós temos que discutir isso em sala de aula, todos os prós e os contras. Então, onde isso é discutido, o aluno pode discernir: se eu for transar  sem  camisinha,  eu  posso  pegar  uma  doença,  posso  engravidar  uma  menina. Se  eu reduzir à coisa da procriação, eu vou estar ignorando outros pontos relevantes, inclusive o prazer, que é ponto crucial”, finaliza Diogo.

*Este conteúdo foi produzido por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) sob a orientação da professora Paula Reis.

 

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Um comentário
  1. Barack
    jun 21, 2016

    Espero que tenham coragem de publicar isso. Vamos ver se realmente vocês são imparciais…

    Resumindo a vida do adolescente atualmente… A TV, os filmes, as rodas de amiguinhos, etc dizem: transem, sintam prazer, isso é natural, tem que fazer isso mesmo, etc. Aí os colégios com suas “educações sexuais” falam: Trepem com camisinha, cuidado para não ter filho, olha as DST, se coloca camisinha no pinto dessa forma, etc.

    Acredito que falta a coisa crucial e que ninguém percebeu( natural pois eles querem que não percebam mesmo) que é a questão fundamental: Eu estou preparado para ter relação sexual? Como lidar com a pressão de “ter que transar”? Como lidar com a cultura da transa? Somos animais sim, temos desejos sim, mas o mais importante é a nossa mente, e isso não vejo constar na tal “educação sexual”.

    P.S Falam que no Brasil há cultura de estupro. Discordo totalmente, sugiro lerem no dicionário o que significa a palavra cultura. Sou totalmente contra esse tipo de violência, sou homem mas não consigo nem ler as notícias pois isso me dá uma tremenda revolta. Mas precisamos tomar cuidado com as palavras. Agora, tenho certeza que há na sociedade brasileira a “cultura da transa” no meio dos jovens e adolescentes. A coisa chegou a tal ponto que ( desculpem pelo vocabulário chulo) quem não dá logo cedo, é careta, tem problema, etc. Veja o resultado dessa cultura na quantidade de moças que se suicidam por tirar fotos nua e terminar parando na internet. Essa cultura mata, e acaba com vidas, mesmo que silenciosamente, mas o que a gente faz ? Nada!! Pois colocaram na nossa cabeça de vento que trepar é coisa normal na adolescência.

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