para maiores de 18 anos

14
jan 2014

Dúvida sobre sexo na aula de História

 
publicado em: educação sexual
por: Julieta Jacob
 

Uma colega minha é professora na rede pública do Recife. Certo dia, durante uma aula sobre a Revolução Industrial, ela perguntou aos alunos:
– Alguma dúvida?
Um deles, o mais bagunceiro por sinal, prontamente levantou a mão:
– Professora, o que é sexo oral?
A turma, que estava extremamente agitada (quem ensina a pré-adolescentes sabe do que estou falando), silenciou diante daquela pergunta inusitada – e inadequada para uma aula de História. O clima de suspense para ver a reação da professora durou alguns longos segundos.
Minha colega, após processar rápidas sinapses para decidir como agir naquele momento, respondeu:
– Sexo oral é quando o homem ou a mulher, adultos, tocam o órgão sexual de outra pessoa com a boca. Podem lamber ou beijar.
Simples assim e de uma tacada só. Sem constrangimentos ou subterfúgios.
O aluno, percebendo a firmeza e a naturalidade da professora, emendou:
– É isso aí, professora. E não é que a senhora sabe mesmo?
Todos riram.
Agora podemos voltar para a nossa aula de História?
– Agora sim, consentiu o aluno, satisfeito com a resposta que tivera.
Como num passe de mágica, o aluno antes desconcentrado, passou o restante da aula mais silencioso e atento à explicação. O comportamento dele, dali por diante, passou a ser mais calmo e mais colaborativo.
Ao relatar o episódio para a direção da escola, no entanto, a minha colega foi severamente repreendida.
– Você não tinha nada que falar sobre “esses assuntos” com os alunos. Que isso não se repita! – advertiu a diretora em tom de ameaça.

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Conversando comigo, a minha colega, que não tem preparação alguma sobre educação sexual, disse que agiu intuitivamente, pois já havia tentando por diversas vezes ao longo do semestre – sem sucesso – fazer com que aquele aluno prestasse atenção às aulas. Mas não tinha jeito. Ele continuava disperso, inquieto e perturbador. A pergunta sobre sexo oral havia sido a única vez que o aluno “participou” da aula. Ao se ver diante do questionamento, minha colega viu também a oportunidade de sanar aquela dúvida e ainda conquistar a confiança do aluno.

Na minha avaliação, ela foi impecável. Aliviou aquela tensão de forma leve e objetiva e manteve as rédeas da aula, convidando todos a voltarem a ela tão logo a pergunta fora respondida. Afinal, apesar de ela ter explicado o que é sexo oral, a aula continuava sendo de História.

Professores e educadores estão sujeitos a passar por situações como essa. Sabe-se que, na maioria dos casos, os alunos não têm com quem conversar sobre sexo e sexualidade e, por isso, acabam pedindo ajuda a professores na escola. Como não há a figura do “educador sexual”, eles acabam recorrendo a quem lhes pareça mais receptivo. Em casa, muitos pais são silenciosos ou mesmo omissos. Na escola, predomina o medo de abordar tais assuntos para que não soe como incentivo a uma prática sexual precoce. Vale salientar, a propósito, que o que ocorre é exatamente o oposto. Crianças com acesso a educação sexual tendem a iniciar a vida sexual mais tarde (já na fase adulta, como deve ser) e, percentualmente, usam mais camisinha na primeira relação do que crianças sem acesso a educação sexual, pois conhecem seus benefícios e também os riscos do sexo desprotegido.

A orientação aos educadores, quando se virem desafiado por uma pergunta “fora de hora” como a que recebeu minha colega (obs: não existe pergunta fora de hora. Cada dúvida deve ser levada em consideração no exato momento em que ela surge, sobretudo no âmbito da sexualidade, onde a maior parte do conhecimento é negligenciada) é respirar fundo (se preciso for) e agir com naturalidade. Caso o profissional não se sinta capacitado a responder à pergunta naquele momento, ele deve sugerir”podemos conversar sobre esse assunto em outra oportunidade?”. E, claro, depois de se informar, o professor deve MESMO voltar a abordar a questão, conforme o prometido. É melhor agir assim do que mentir ou inventar uma resposta. E muito menos repreender o aluno como se o fato de fazer uma pergunta sobre sexo ou sexualidade fosse uma falta grave ou motivo de vergonha.

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9
jan 2014

Ninfomaníaca – Parte 01

 
por: Julieta Jacob
 

Num tempo em que a impotência e a falta de apetite sexual assombram homens e mulheres mundo afora, o tema da ninfomania corre o risco de ser mal interpretado. “É alguém que gosta muito, muito de sexo. E que mal pode haver nisso?”, podem pensar alguns. O pensamento não está de todo equivocado. Mas há um detalhe – que muda todo o cenário e transforma o que seria algo “maravilhoso” num filme de terror. No caso da ninfomania, não podemos usar a palavra “gostar”. Ela é inofensiva e, se usada nesse contexto, sugere mesmo um comportamento saudável. Afinal, de fato, não há nada de mal em gostar de sexo. No entanto, o ninfomaníaco não gosta de sexo. Ele é viciado em sexo. Ou seja, isso quer dizer que aquilo que poderia ser apenas um hábito tranquilo, virou doença.

No filme Ninfomaníaca – Parte 01, de Lars Von Trier, a protagonista é viciada em sexo. Eu imaginei que o diretor pudesse conduzir o filme explorando a faceta mais patológica do problema. Mas o que se vê na tela é uma visão mais moralista e religiosa, em que Joe, a protagonista, se sente extremamente culpada e pecadora por fazer – e não necessariamente gostar – tanto sexo e com tantos parceiros.

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O filme é conduzido em flashbacks a partir das memórias de Joe, que relata a sua história a um senhor que a encontrou no chão, sob a neve e ferida (essa é a cena inicial do filme). O relato tem um claro tom de confissão, como se Joe precisasse passar a limpo a sua história para um homem que faz as vezes de padre no intuito de, quem sabe, ser absolvida de seus pecados.

Explora-se muito mais o sexo do que o prazer e o desejo. O amor é quase totalmente deixado de lado. Ele só aparece quando a amiga de Joe (e parceira nas primeiras descobertas sexuais de ambas) diz a ela que “o ingrediente secreto do sexo é o amor”. Joe, é claro, não apenas recusa essa afirmação, como também reprova a atitude da amiga, como se ela estivesse traindo a causa do sexo pelo sexo.

Ao tentar descrever a sua condição de “viciada”, Joe diz: “Imagine uma porta automática que se abre quando alguém se aproxima. Agora imagine essa porta com um sensor ultrasensível. Assim é a minha boceta”.

É claro que o meu lado “educadora sexual” questionou: – Mas será que ela não engravidou? Quantos abortos terá feito? Será que contraiu alguma doença venérea? Todas as perguntas ficaram sem resposta.

Uma análise psicanalítica talvez concluísse que a ninfomania de Joe teve origem na sua relação com os pais. Talvez uma paixão reprimida pelo pai e uma aversão extrema pela mãe – a quem ela chama de “vadia”. Uma das cenas que traduz um pouco da “loucura” que é a ninfomania, é quando Joe vê o pai morto no leito do hospital e se sente ex-tre-ma-men-te excitada. Uma ilustração perfeita dos instintos do Eros e do Thanatos atuando a um só tempo, diria Edgar Morin.

Essas foram algumas impressões que eu tive sobre Ninfomaníaca – Parte 01. Apesar do oba-oba que se tem feito acerca das cenas de nudez e sexo, elas não têm nada de explícito ou de surpreendente. No geral, eu gostei do filme e só lamentei na hora em que, subitamente, ele termina: no “melhor” estilo coito interrompido. Veio aquela sensação de “Ah, não! Logo agora que tava ficando bom!”. Teremos que controlar a curiosidade. A parte 02 só deve ser lançada em março – e parece ser mais interessante do que a primeira. Só aí vamos descobrir como foi que Joe foi parar ali no chão, ferida, no meio da rua e sob a neve (é assim que ela aparece numa das primeiras cenas do filme).

Vale a pena conferir! Ninfomaníaca – Parte 01 estreia amanhã, 10 de janeiro, no cinema da Fundaj. Depois me contem o que acharam!

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29
nov 2013

Sobre o pecado

 
publicado em: amor
por: Julieta Jacob
 

“- Você tocou seu corpo com as mãos? – perguntou.
– Sim, padre – balbuciei.
– Muitas vezes, minha filha?
– Todos os dias.
– Todos os dias! Essa é uma ofensa gravíssima aos olhos de Deus, a pureza é a maior virtude de uma menina, você deve me prometer que não fará mais isso!

Prometi, embora não conseguisse imaginar como iria lavar o rosto ou escovar os dentes sem tocar meu corpo com as mãos.”

Isabel Allende, relembrando um episódio da sua infância no livro “Amor”.

Moral da história: na maioria das vezes, a “maldade” está apenas na cabeça do adulto. Quem age assim reprime e confunde a criança, ou seja, promove uma anti-educação sexual.

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23
nov 2013

Dica literária: Fogo nas entranhas, de Pedro Almodóvar

 
por: Julieta Jacob
 

Muita gente só conhece o Almodóvar cineasta… mas o talento do espanhol vai além da sétima arte.

Ouça meu comentário sobre o livreto (o diminutivo justifica-se pelo tamanho do livro, bem pequenino) “Fogo nas entranhas” e corre para a livraria!

Almodóvar também é autor do livro “Patty Diphusa”, sobre uma divertidíssima estrela internacional de fotonovelas pornô. Já está na lista de dica literária do programa!

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22
nov 2013

A minha utopia

 
por: Julieta Jacob
 

Ontem assisti ao filme Tatuagem, de Hilton Lacerda. Entrei no cinema cheia de expectativa (principalmente depois da entrevista que André Dib deu ao Erosdita sobre cinema gay) e saí recompensada. É que Tatuagem é mais do que um filme-paisagem, sabe? Daqueles que a gente aprecia e esquece no exato momento em que sobem os créditos finais.

É um filme que faz a gente voltar pra casa com um pouco mais de coragem. Em resumo, o filme elevou meu instigômetro.

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Mas antes de falar da minha instigação, quero registrar que ontem vi uma das cenas de sexo gay mais lindas do cinema desde O Segredo de Brokeback Mountain. Bravo!

Voltando à minha instigação: o filme me despertou um siricutico a ponto de eu querer sair rodopiando feito o personagem Paulete (Rodrigo Garcia), que disse ficar cheio de tesão quando Clecinho (Irandhir Santos) pediu que ele guardasse um segredo. É por aí… se não entendeu a analogia, veja o filme. É massa!

A trilha que melhor descreve esse meu estado é a Polka do Cu, obra-prima do DJ Dolores, que você pode apreciar aqui (pausa para você escutar e entrar no clima):

Tatuagem é sobre amor, sexo e liberdade. Como o filme se passa na época da ditadura, dá pra entender que o desejo de liberdade seja explosivo, incontrolável. Daí porque a música afirma que “a única utopia possível é a utopia do cu”, assim mesmo, sem meias-palavras e sem que isso fosse um ato puramente obsceno. Era um protesto. Afinal, naqueles anos, nada poderia ser mais pornográfico (no mau sentido) do que sequestrar o direito de ir e vir dos cidadãos.

Dizem que a liberdade mata a utopia. Afinal, se somos livres, o que mais podemos querer?  É como se a possibilidade de ter “tudo” aniquilasse o próprio desejo.

Pensáva-se que com o fim da ditadura nós, brasileiros, nos tornaríamos livres. Mas não foi o que aconteceu. A tal libertação do corpo e das ideias, proposta em Tatuagem, pode estar em andamento (quero crer nisso), mas ainda não se consolidou por completo.

Portanto, embalada pela empolgação pós-filme, quero registrar aqui a minha utopia. É simples:

Quero um país onde as pessoas sejam mais bem resolvidas com a sua sexualidade. Menos culpas, menos medos, menos tabus. Menos preconceito e julgamentos. Mais prazer, mais satisfação. Mais respeito. Mais amor. E mais sexo.

Parece fácil. Mas, se fosse, não seria uma utopia. Seria apenas uma vontade. E vontade é feito fome: dá e passa. Já a utopia é capaz de acompanhar a gente por uma vida inteira.

Como sou uma utópica moderna, eu peço e já vou dando a solução. Só há um caminho: através da educação sexual. Ampla e irrestrita, como a anistia. Para crianças e adultos. Na escola e em casa.

Só assim vamos poder dizer que a utopia do cu não é mais a ÚNICA possível. Pois a minha também será.

Quem me acompanha?

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22
nov 2013

Dica de filme: Tomboy

 
por: Julieta Jacob
 

No programa Erosdita que vai ao ar na Rádio JC news, eu dou dicas de livros e filmes que tragam algum conteúdo interessante sobre sexo e sexualidade (o programa tem também entrevistas, notícias e o Sexo a Duas. Sintoniza!).

Para abordar a temática da transexualidade, um dos filmes que faz isso com maestria é Tomboy, da diretora Céline Sciamma.

Ouça o podcast e corre para a locadora!

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21
nov 2013

Sexualidade no teatro, por André Brasileiro e Marcondes Lima

 
por: Julieta Jacob
 

Eles já montaram peças como “Angu de Sangue”, “Ópera” e “Essa febre que não passa”. Os personagens são fortes e quase sempre apresentam traços marcantes da sexualidade, de preferência, quebrando estereótipos e saindo do lugar-comum.

Já subiram aos palcos do Coletivo Angu de Teatro um gay ao estilo Amélia, um estuprador que coloca a culpa dos abusos na criança (há vários assim na vida real, infelizmente), uma mulher que engravida sem qualquer planejamento e dá os próprios filhos, um homossexual à moda antiga, um transexual que rouba os absorventes da prima para fingir que menstrua e até um cachorro gay.

Tudo isso ao longo de 10anos  do Coletivo Angu. Na entrevista, os teatrólogos e fundadores do Coletivoo André Brasileiro e Marcondes Lima, falam sobre esses personagens e como a sexualidade é uma marca indispensável do teatro que eles realizam. Ouça e faça o download!

Atenção: todas as quatro peças do Coletivo Angu serão remontadas em comemoração aos 10 anos de fundação do Coletivo. As datas das apresentações ainda não estão definidas, mas sabe-se que o calendário comemorativo deve ir até abril de 2014. Chance imperdível!

André Brasileiro (à dir.), eu e Marcondes Lima (à esq.).

André Brasileiro (à dir.), eu e Marcondes Lima (à esq.).

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20
nov 2013

Gosto de homens

 
publicado em: amor, LGBT
por: Julieta Jacob
 

O filho de uma colega está morando no exterior. Um belo dia, ao abrir o facebook, ela se depara com o seguinte status publicado no mural dele: “Gosto de homens”.

De imediato, uma avalanche de comentários de amigos, ex-vizinhos, inimigos e parentes:

– Como assim?

– Mas você não dá pinta!

– Chocada!!

– Não acredito!!

– Foi pro exterior pra sair do armário!

Até o pai do garoto telefonou para a minha colega (eles são separados) para tomar satisfação, com aquele tom subliminar de a “culpa” é sua:

– Que palhaçada é essa? O que está acontecendo?

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Diante de tantas reações negativas e de tanta cobrança, a minha colega, mesmo sem ter conseguido falar com o filho para ouvir dele o motivo de tal revelação, apenas escreveu:

– Filho, eu te amo.

E ninguém mais opinou sobre o assunto. Em vez disso, uma onda de “likes” inundou a frase que a minha colega escrevera. O “eu te amo” passou a chamar mais atenção do que a revelação de que o rapaz era gay.

Creio que as pessoas perceberam que ali havia amor incondicional de uma mãe para um filho, sentimento cada vez mais raro nos dias de hoje. E havia mesmo.

Entendi que, no fundo, até mesmo aqueles que criticam o outro e gostam de “chutar cachorro morto”, adorariam ser aceitos e amados como a minha colega ama e aceita o seu filho. E não me refiro apenas à aceitação referente à orientação sexual. Esse desejo é mais amplo e está presente em vários outros aspectos da nossa vida.

Mas… voltando à história… querem saber como ela terminou?

No dia seguinte, tudo foi esclarecido. O filho da minha colega tinha esquecido o facebook aberto e um amigo dele, pra tirar onda, escreveu que ele era gay.

Tudo não passou de uma pegadinha. O filho da minha amiga continua hétero como sempre foi. E a brincadeira de mau gosto, felizmente, deu a ele a chance de comprovar a mãe incrível que ele tem.

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18
nov 2013

Gentileza é fundamental

 
por: Julieta Jacob
 

Porque hoje eu estou romântica… e porque acredito que a gentileza é um ótimo caminho para se conquistar alguém (nem que seja só para uma transa sem compromisso).

Se a vida da gente já começa com uma disputa, que a gentileza seja sempre um diferencial nas competições que a vida nos apresenta.

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16
nov 2013

O que é o ponto G da mulher?

 
publicado em: sexo
por: Julieta Jacob
 

De tempos em tempos alguém me aparece falando desse danado desse ponto G. Tudo porque ele ganhou fama na mídia como “o ponto do prazer”. Supostamente, ele é sim o ponto do prazer. Supostamente. Mas eu, que não entendo nada de Medicina (nem de investigação – sim, porque a pessoa tem que ter uma vocação para detetive para encontrar esse tal ponto escondido), contesto essa tese. E graças a Deus, tenho o apoio de uma das sexólogas mais renomadas do Recife e do Brasil, a médica Angelina Maia, de quem sou grande admiradora.

Na entrevista que Angelina deu ao Erosdita, falamos que o ponto G poderia ser tranquilamente rebatizado de ponto C. “C” de clitóris, claro! O clitóris sim é que “liga” a mulher. Concordam, leitoras?

Mas a ouvinte Nádia me escreveu querendo saber o que afinal é esse famoso ponto G. Confira a resposta que eu e Rebecca demos a ela:

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